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Por isso esse blog possui esse nome... Jigoku No Sora,
o Teto do Inferno

"Esse eu insensato, que tem tão pouca chance de salvação, é totalmente incapaz de resistir a desejos intensos e comprometimentos, a essa sucessão de dias e noites, inegavelmente reais, passada sob o constante tormento das ilusões monstruosas; isso é o inferno." - Hiroyuki Itsuki

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30 de abril de 2008

Debate sobre a Questão Tibetana no Rio de Janeiro

O Colegiado Buddhista Brasileiro, contando com o apoio da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro e do Deputado Fernando Gabeira, estarárealizando no dia 12 de Maio, às 10 horas, no Plenário da Câmara Municipaldo Rio de Janeiro o "Debate Público sobre a Questão Tibetana" juntamente comlideranças budistas brasileiras, o qual será registrado nos anais edivulgado no Diário Oficial.

É um evento que liga os políticos brasileiros à causa do Dalai Lama e umaoportunidade especial para nos manifestarmos e fazer diferença em favor dooprimido povo tibetano, reforçando a posição do Budismo Brasileiro em proldo exercício da não-violência e da paz, do diálogo entre povos e culturas, eo respeito aos direitos de todos os seres.Sendo necessário o maior apoio possível ao evento, solicitamos a todos osque deste tomem conhecimento que o divulguem em todas as listas públicas eparticulares, blogs e sites, convidando os budistas e simpatizantes com acausa tibetana a comparecerem ao Plenário da Câmara.Debate Público sobre a Questão TibetanaDia 12 de Maio às 10 HorasPlenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro - Palácio Pedro Ernesto -Praça Marechal Floriano, s/n, Cinelândia, Rio de Janeiro.

Em nome do Dharma,
Prof. Maurício Ghigonetto (Shaku Hondaku)
Presidente

Membros Fundadores
Rev. Wagner Bronzeri (Shaku Haku-Shin)
Site Oficialhttp://www.honganji.dharmanet.com.br

Rev. Meihô Genshô
Site Oficialwww.chalegre.com.br/zendo

Dhammacariya Ricardo Sasaki (Dhanapala)
Site Oficialhttp://www.nalanda.org.br/

Prof. Claudio Miklos (Tam Huyen Van)
Site Oficialhttp://tamhaovan.multiply.com

Colegiado Buddhista Brasileirohttp://cbb.bodhimandala.com________________________

22 de abril de 2008

Amigos Caninos

Bom, todos que me conhecem um pouco mais sabem de minha paixão por cães, em especial das raças do tipo bull, tais como Staffordshire Bull Terrier, American Staffordshire e os ignorantemente marginalizados, American Pit Bulls. Como não poderia deixar de ser, abri um canil recentemente para criar essas raças e adquiri algumas matrizes e padreadores. Além claro, do Prince e da Pucca que moram comigo em casa e são o xodó da família.

Neste último feriado, cheguei ao canil e o Sadan, um American Stafforshire Terrier, de 30kgs, muito dócil, brincalhão e malandro, estava completamente petrificado. Não mexia as pernas, as orelhas repuxadas, olhos esbugalhados, um sorriso de desespero na face, devido ao retesamento dos músculos. Diagnóstico: tétano! Devido a um machucado na pata que ele teve há 2 semanas.

Foi de cortar o coração ver um cão tão ativo e amável totalmente paralisado, praticamente empalhado, fitando meu rosto como se pedisse, suplicasse, uma ajuda imediata. Pensei que o rápido atendimento lhe garantiria melhoras, mas ficou internado 2 dias e hoje está de volta ao canil, ainda bem paralisado, mas mesmo assim, tenta abanar o rabo quando me vê e tenta me lamber quando faço massagem nele.

Sadan é um guerreiro por natureza, como todo cão do tipo bull, que são raças criadas para não ligarem para a dor e serem afetuosos com seres humanos (agora mesmo, enquanto escrevo esse, o Prince, meu Staffordshire Bull Terrier, me cobre de lambidas no rosto), mas o futuro parace obscuro para esse meu amigo, pois embora os veterinários afirmem haver esperança para meu guerreiro, todas as pesquisas que fiz na internet apontam para um desfecho cruel: morte do animal.

Hoje cedo estive com o Sadan, me recebeu com euforia, embora só pudesse mexer a ponta do rabo, mas seus olhos amarelos me transmitiam alegria em me ver, pois colocou sua cabeça entre minhas pernas enquanto eu fazia massagem em suas orelhas. Sentei-me no box com o coquetel de remédios na mão, o trouxe para o meu colo, coloquei-os em sua boca e lhe massageei a garganta para que não engasgasse.... então abraçado aquele guerreiro canino de 30 kg, chorei pensando na possibilidade de perdê-lo. É duro ver um animal extremamente forte, robusto, nas condições dele. Naquele momento me passou pela cabeça acabar com aquele sofrimento de uma vez, afinal um guerreiro deveria ter uma morte austera, salvando alguém, ou defendendo outrém, mas Sadan estava ali, praticamente imóvel, com o corpo retesado, provavelmente com dores horríveis que não podiam ser expressadas.

Abraçado ao meu amigo, pensei em matá-lo, em tirar-lhe a vida para que não sofresse mais, na esperança que sua dor se extinguisse. Então, lembrei-me dos ensinamentos de Buda, que ninguém pode alterar o karma do outro e a situação que me encontrava era produzida por uma série de causas e efeitos e que tirar a vida de meu amigo somente solucionaria, quiçá, a minha dor e não a dele.

Então me lembrei que as vezes, por não suportarmos olhar para a Verdade, olhamos para o outro lado ou a compensamos com esperança. Mas o que é a esperança senão a ampliação da ilusão? Ontem eu tinha a esperança que Sadan ficaria bem, vi que era uma grande ilusão, pois ele piorou muito. Hoje estava desacreditado, mas o encontrei melhor, mas tinha na minha cabeça as pesquisas no Google que havia feito. Então, de nada adiantava ter esperança, pois o karma é implacável e o ego soberbo.

Quase tirei a vida de um dos meus cães por eu ser um covarde e não poder vê-lo sofrer, mas um guerreiro trava, também, batalhas internas e sei que ele está combatendo com veemência essa doença. Mas se Sadan tiver que ir embora, que vá tranquilo e que a breve vida nessa terra lhe gere méritos para retornar como um ser humano.

Claro que ficarei triste, pois sou também um ser humano e cães tem um amor incondicional, um amor selvagem, um amor irracional pelos seus donos, a ponto de darem a própria vida por eles sem hesitar. Mas nós seres tolos, achamos que somos os donos da Verdade e nos damos o direito de ter esperança e de achar que podemos mudar o karma alheio, nos colocando como superiores à Lei da Causa e Efeito... ledo engano.

Sadan, meu guerreiro, meu amigo.... força...

18 de abril de 2008

Quem é Amida? Uma Visão Ocidental

Muitos perguntam, afinal o que ou quem é Buda Amida. Existem muitos textos que tentam explicar o mito de Amida ainda de uma maneira metafórica do jeito que ocidentais sem qualquer referência católico-cristã possam entender. Contudo existe uma torrente de iniciantes e muitos praticantes experientes que ainda não conseguem desassociar a figura de Buda Amida de um ser supremo, regulador ou dono das ações humanas.

Para compreendermos quem ou o que Buda Amida realmente é, temos que levar em conta alguns aspectos e posturas, como seguem. O Budismo Shin é uma tradição budista e segue os sutras budistas, portanto temos que partir do pressuposto que ele passa uma mensagem budista e cabe a nós entende-la. Shinran Shonin (fundador da escola budista Jodo Shinshu) não era nenhum maluco e portanto merece credibilidade. Não sendo Shiran um louco, lembro que ele baseou a doutrina da Terra Pura em ensinamentos de 7 Mestres (Shichi Kozo) renomados do Budismo e anteriores a ele: Nagarjuna (dito o "pai" do Mahayana e criador da filosofia Madhyamika), Vasubandhu (criador da filosofia Yogacara), T´an Luan (mestre chinês que compilou vários textos e sutras da Terra Pura), Tao Cho (popularizou a doutrina da Terra Pura na China), Ch´an Tao, Genshin e Honen (que foi o grande professor, mentor e inspirador de Shinran Shonin).

Também temos que a figura do Buda Amitabha e de Amithayus (Amida em japonês e Amito em chinês) é unânime em todas as linhagens budistas, incluindo o Zen, o Ch´an e as escolas tibetanas portanto o Budismo Terra Pura não apresenta nada de novo, nem estranho à doutrina budista em geral, aliás muito pelo contrário. A única tradição que não possui este conceito é a Theravada.
Lembremos que no oriente, o uso de metáforas, alegorias e mitos para se explicar conceitos, arquétipos e fundamentos é largamente utilizado. Um exemplo: Avalokitesvara (Kannon em japonês e Kwan Yin em chinês) é representado como uma figura humana, mas não há indícios históricos que comprovem que ele definitvametne existiu, ou seja, é um mito. E muitos budistas recitam "Om Mani Padme Hung" que é o mantra de Avalokitesvara, que nunca existiu... logo, isto tb não é considerado "anti-budismo". Recitar um mantra não é confiar num "poder" que não é o seu?

Vamos também deixar dogmas e conceitos católico-cristãos de fora. Não dá para ficar comparando Budismo com Cristianismo, pois não dá para argumentar com dogmas e lembremos que Shakyamuni sempre utilizou métodos diferentes para explicar a mesma coisa para pessoas diferentes. Podemos dar uma explicação extremamente "técnica" sobre o assunto, mas querendo evitar tal prática, pretendemos tentar explicar de uma maneira mais coloquial, mais acessível a todos.

Muito bem, isto posto e entendido vamos lá.

É muito comum criarmos uma confusão mental quando tentamos entender um mito ou a personificação arquétipica tão comum na Índia e ocidente em geral, pois geralmente entramos em conlifto com nossas bases católico-cristãs. Você se sente assim? Bem-vindo ao time! No começo, tudo geralmente é muito estranho, mas sempre temos que ter em mente que estamos numa escola budista, logo tudo tem que ter uma lógica clara...

O Buda Amida, como Buda primordial, é a fonte, a origem de todos os Budas, mitologicamente falando. Imagine uma fonte de água do tamanho de vários universos, a fonte é o Buda e a água é o composto de sabedoria e compaixão, luz e vida. Esta água transborda pela fonte e é infinita, formando "poças" pelo Universo em que nos encontramos e em nossa existencia atual. Cada vez que pisamos nestas "poças" entramos em contato com a "mente búdica", a "mente pura" de Buda. Buda Amida é uma "entidade teológica personificada", segundo Rev. Prof. Ricardo Mario Gonçalves. É uma representação da Iluminação em si. Mas de nenhuma forma é um ser, ou um regulador, ou um juiz, ou um criador. Em nada se assemelha ao deus cristão. Ele não é a origem de tudo, ele é a representação da origem da comapixão ilimitada, tanto que no mito de Avalokitesvara, este nasce de uma lágrima de Amithaba.

Troque Buda Amida por "Iluminação" ou "Natureza Búdica" e releima os textos que falam sobre Ele. Acho que fica mais fácil assim! E troque "Terra Pura" por "Nirvana", vocês verão que as peças começam a se encaixar. E se vc encontrar a palavras "Shinjin" (Mente Confiante) troque por "Mente Búdica" ou "Mente Pura".

Muitos perguntam: Amida é uma figura a qual devo recorrer em momentos de necessidade? Olhem, na verdade, no momento de necessidade você só tem a si próprio e aos ensinamentos budistas. Não dá para recorrer a ninguém mais. Está conosco! Não podemos confundir com o deus cristão. O mito de Amida só pode nos oferecer o porto seguro do Dharma, mas ele não elimina karmas. Por favor, leiam o texto OCEANO que está aqui no blog . Acho que vão entender o que queremos dizer. Buda Amida não controla nada no Universo. Ele não existe! É uma metáfora! Uma metáfora, não pode controlar o mundo e não há divindade no Buda Amida, podemos rezar para ele o quanto quisermos e pedir para ele nos iluminar, mas não vai dar resultado.

Mas como não podemos nos iluminar sozinhos? Perguntariam alguns. Quando falamos em "poder próprio" estamos dizendo que se você senta para meditar, por exemplo, com o intuito de se iluminar você nunca vai conseguir isso, por que quem está no comando é o seu EGO e toda a filosofia budista está calcada na eliminação deste. Como vc vai se iluminar através de algo que você tem que eliminar? Leiam o texto OCEANO que é um texto que ilustra bem isso. E, olhem, isto não é exclusividade da Escola da Terra Pura no Budismo, não! Agora se você se senta com a mente limpa, sem pretenções, sem objetivos, apenas confiante que você pode chegar lá e tem a consciência de que para chegar lá você tem que se distanciar cada vez mais de seu objetivo, mas sempre confiando que isso é póssível porque várias pessoas já conseguiram desta forma, você chega! O próprio "querer se iluminar" é uma manifestação egóica, a Iluminação é uma consequência, não um objetivo e sendo uma consequência, não depende de você. Agora se passamos a ter a confiança (erroneamente traduzido por "fé") - SHINJIN - passamos a ver o mundo sem julgamento, ver o mundo com a MENTE BUDICA, e ver o mundo desta maneira, é ver a realidade como ela realmente é. É pisar na poça de Amida! Tanto que Shinran fala que basta recitar o nome de Buda Amida uma única vez, desde que que feito com a mente pura, mente búdica, mente confiante, Shinjin e estamos garantidos!

Agora isso não é exclusivdade nossa [Budismo Shin], olhem as thangkas (pinturas sagradas) tibetanas, na sua grande maioria Amitabha está lá. No Zen e no Ch´an é a figura central nos altares. Por que? Porquê todas as escolas tem este conceito, só que poucas dão nomes "aos bois" e centram seu ensinamento nisso de forma explícita. Peguemos o Ch´an como exemplo, praticam meditação, mas cumprimente um praticante Ch´an, para ver. Em vez de "Olá", ele vai te dizer "AMITOFO" que é "Buda Amida" em chines!

Se estamos todos interligados (fenômeno da interdependência) e todas as nossas ações são refletidas no universo, temos que nos integrar a isso, eliminando nossa mente dualizada (você já deve ter ouvido isso largamente pelos ensinamentos budistas) estamos eliminando o "NOSSO PODER", o Poder Próprio, Jiriki e dando lugar, ao PODER DO OUTRO, ou o poder unificado, Tariki.. De uma maneira simples, o "Outro Poder" é a ausência do EGO!

Então não podemos contar cosigo mesmo? Não! Você deve contar com você próprio para alterar sua visão do mundo. Todo o caminho começa com o nosso próprio poder, nosso ego, nossa vontade e depois vemos que ele não é suficiente, pois nosso EGO é nosso maior obnstáculo. Troque "Outro Poder" por "Ausencia de Ego" e veja o significado.

Várias pessoas acreditam que no budismo só podem contar consigo, que esse é o valor central do Budismo e que não devemos depender de um deus com o qual tenho que barganhar. Mas, como vamos barganhar com Buda Amida? Barganhar com alguém que não existe? Vai barganhar o que? Oferendas? Para quem? Mas, mesmo assim "devo me sentir dependente de um buda de luz infinita"? Não, não é dependência. É compreensão e garantia. Compreensão de que temos um EGO e garantia que podemos subjugá-lo e quando falo que não podemos nos iluminar sozinhos, quero dizer pelo nosso próprio esforço. Pq pessoas que sentam para meditar durante décadas não chegam a lugar algum? Buda só meditou 49 dias! Tem gente que medita por 25 anos e não sai do lugar. Por que? Por que fazem errado? Mas as regras da meditaçao são simples e claras, não tem erro. Quantas pessoas meditam no mundo todo? Há quanto tempo? E por que não teve nenhum Buda entre nós nos últimos 2000 anos? A meditação é um caminho tão válido quanto o Nembutsu (recomendo a leitura do livro "Budismo Essencial de Gyomay Kubose para maiores comparações), pois da mesma forma que muitos meditadores devotados aos seus atos não se iluminaram nos últimos séculos, tantos outros grandes recitadores do Nembutsu, também não lograram èxito! Por quê? Pq simplesmente é muito difícil se iluminar por conta própria, com todo a carga egóica que temos. Nossa mente é como um macaco pulando de árvore em árvore, estamos sempre julgando os outros e a nós mesmos, não conseguimos ver as coisas como são.

Não temos Mente Búdica!

O mito de Amida nos ajuda a compreender um conceito extremamente amplo e primordial, que se mostra de difícil absorção para os ocidentais, levando em consideração nosso passado arraigado aos dogmas cristãos e a visão judaico-cristã de um demiurgo que regula, julga e determina o futuro. Buda Amida não se apresenta nestas condições, nem com este papéis, é a simples "materialização" da origem de toda a sabedoria e compaixão existentes.

Namo Amida Butsu!

Uma Montanha Chamada Samsara

O homem está fadado a vagar pelo ciclo de renascimento e morte por um sem fim de eras a menos que vá de encontro à natureza de sua mente, que se livre do sofrimento e busque a felicidade definitiva. Como sabemos o nome deste ciclo é SAMSARA, ao qual todos os seres sencientes vertem e revertem ao longo de suas milhares de vidas.

Mas podemos ver o samsara como uma grande e alta montanha, no pé da qual iniciamos nossa escalada meio sem rumo e sem direção, às vezes, descendo em vez de subir ou andando para os lados. A montanha é tão grande que podemos caminhar meses ou anos para uma mesma direção sem nunca chegarmos ao ponto de nossa partida. Seu cume é tão alto que o ar se extingue em suas dependências e a vista se perde muito antes de se chegar ao pico, onde nem mesmo as mais altas nuvens conseguem resistir a perenidade.

Seu interior maciço e denso jamais nos deixa perfurá-la. Tuneis são impossíveis de serem construídos e chegar ao outro lado pelo seu âmago significa passar por existências de mais sofrimento: são os reinos inferiores. Dentro da montanha vemos os animais no seu ciclo de sobrevivência da lei do mais forte, presos aos próprios instintos incapazes de determinarem sua prática, preocupando-se com a própria sorte. Devem se manter vivos.

Mais ao fundo da montanha, o alimento abunda mas a fome reina e os gritos de dor e abstinação ecoam pelo território dos fantasmas famintos, com suas gargantas ardendo em chamas ignidas pela presença do alimento em suas bocas. Mas a dor faz parte de suas vidas e sua conformação não lhes dá opção além daquela de lutar e guardar todo os alimentos possíveis e ficar tentando sorver ao menos gramas de migalhas incandecentes para aliviar os gemidos constantes de seus estômagos.

Nas profundezas desta fortaleza de minério encontra-se o mais baixo dos níveis, onde Ksitigharba desejou renascer para libertar os seres demoníacos que alí habitam num longa estada de dor física e lamentações. Seres na quantidade da poeira existente nos bilhões de universos que anseiam por dalí saírem o mais rápido possível, mas este egoísmo e esta angústia os prendem mais e mais ao inferno de suas emoções.

Imagina-se que chegar ao cume por cima seria uma grande chance de se libertar deste ciclo incasável, mas os devas não se importam com isto, muito menos os asuras já que têm tanto êxtase e tanto com o que se deleitar. Os deuses e semi-deuses estão em seu espaço sem forma permeando a atmosfera da montanha mas sem nunca alcançá-la, sem tocá-la, sem mesmo percebê-la. Que chance magnífica desperdiçam.

Escalar o samsara é feito somente para os humanos. Chegar ao topo desta montanha estrondosa por suas encostas é uma tarefa para os humanos, tão poucos como os grãos de areia debaixo de um única unha. Os humanos do Suha, nosso mundo, o mundo onde Sakyamuni renasceu e vem guiando milhões de discípulos.

A escalada é feita durante vidas e vidas. Uns caem dentro da montanha indo parar nos reinos inferiores outros dela saem para a luz do dia, mas os caminhos são diversos, entretando, tortuosos e cobertos de pedras, pedregulhos, grandes rochas.

Para quem está no pé, olhando para cima, vê-se várias opções de subida pelas encostas. Caminhos que parecem mais fáceis, outros que demandam mais técnicas. Alguns mais curtos a primeira vista, outros mais longos quando analisados do ponto mais baixo. Contudo, é o pico que eles almejam e para lá todos convergem. Para a Luz que emana do ponto mais alto e que parece impossível de se alcançar, para a Luz que ascende ao infinito do Universo e irradia pelo céu da manhã. É para lá que os caminhos levam.

Vê-se que estes se adaptaram e muitos humanos se adaptaram a eles, mas todos levam suas mochilas nas costas sem excessão. Presas ao corpo como se desse fizesse parte, como se desse nunca se separasse. Umas mais cheias, outras rasas. Para cada ação boa, os escalantes retiram uma pedra de sua mochila, a deixando leve e fazendo sua escalada mais fácil e mais simples. Para cada ação prejudicial a si próprio e aos outros, os humanos as colocam novamente nas suas mochilas. As pedras são proporcionais ao impacto de suas ações, um pedregulho ou uma grande rocha. De vez em quando a mochila pesa demais e um buraco se rompe no solo onde se pisa e faz com que o humano caia dentro da montanha, caia para os reinos inferiores. Mas, como dissemos, a mochila pode ficar muito leve fazendo com que em humanos e outros seres inferiores se transformem saindo deste buracos para continuar a jornada montanha acima. Pedras colocadas, pedras retiradas, por vidas e vidas, esta é a Lei do Karma.

De repente, vemos uma pessoa com a mochila vazia que aproveita o instante e corre, corre com todas as suas forças. Lá vai um Mestre, rumo ao topo. Desvia-se das rochas, sente o caminho, encontra atalhos. Vê as pegadas de outros que o antecederam, poucos acham estas pegadas, gastas pelo tempo, escondidas pelo ego.

Lá vai um Mestre. Há poucos destes, um a cada muito tempo. Vários o tentam imitar, largam as mochilas, achando que se livrarão das pedras. Ledo engano. Se perdem, acham barreiras de pedras e não tem onde colocá-las, não tem como se livrarem delas. Voltam ao ponto de partida e colocam uma nova mochila nas costas. Tudo de novo.

Lá vem um Mestre. Ele chegou ao topo, encontrou a Luz, viu a Verdade. Viu a si próprio e encontrou com aqueles que decidiram serem guias, serem uma bússola para os que tentam subir e os que tentam emergir de dentro da montanha. São exemplos. Alguns decidem ficar ali observando os que sobem, outros movidos pela sua bondade e compaixão exacerbadas decidem descer novamente e começar tudo de novo. Mas a Luz é internalizada e nada é esquecido. A realidade passa a ser pura e o instante, infinito. Ele ganha uma mochila diferente, uma que tritura as pedras que ali são colocadas e eliminam seu cascalho em forma de pó de diamante. Ele volta para ensinar aos que sobem os melhores caminhos, para apontar onde há menos pedras, pois menos onde há menos ações negativas para serem pegas, mais chance de subir, em menos tempo. Caminhos mais limpos. Caminhos mais livres. Caminhos mais claros.

Os nomes destes caminhos limpos são vários, chamam-se a Rota dos Preceitos, a Encosta da Ética, a Trilha do Vinaya. Quanta pureza nestes caminhos. Os Mestres os conhecem bem e tentam mostrar isto para aqueles que escalam, tentam desenhar o mapa, mostrar a trilha. Mas, caminhos são caminhos, e alguns acham que onde há mais pedras há mais segurança, há no que se agarrar e uma mochila mais pesada pode mostrar mais superioridade. “Eu tenho mais pedras do que você!”, exclamam alguns, mas o Mestre está ali, ouve e fica contente. Mais gente para ajudar.

Há Mestres em todos os caminhos. Eles os conhecem, eles os desenham e cabem a nós seguí-los ou lançar-nos a nossa própria sorte. Eles já chegaram ao topo e querem nos auxiliar a trilhar os caminhos certos, a carregar menos pedras. Eles retiram sem que percebamos várias pedras de nossas mochilas e colocam na sua própria para serem trituradas e virarem pó para cobrir o caminho para os próximos. Preocupados que estamos em não pegarmos a saída errada, nem percebemos. Quanto egoísmo.

Eles nos ensinam a pegar as pedras nas mãos e as transformarem em diamantes que de tão puros somem no ar. Menos pedras, menos obstáculos. O topo se aproxima. Poucos humanos por perto, um aqui outro ali. Muitos desitiram e voltaram. Poucos no topo chegaram ou chegarão. Cansa, desanima, a ilusào da realidade engana. “Para que subir?”, pensam uns, “para que me cansar?”, indagam outros. É o samsara. É a ilusão. A planície no pé da montanha é linda, mas é ilusória. Não existe...

Mas os Mestre povoam a montanha. Compaixão! Paciência! Perseverança! Mais caminhos, mais andarilhos, parecem não mais acabar.

Os caminhos começam com um único passo. Subdividem-se. Dezenas aparecem. Mas no fim, lá perto do topo todos se unem sem excessão numa solitária trilha onde não há mais nenhuma pedra, areia ou impureza, uma trilha vazia, chamada o Caminho do Boddhisatva, onde os Mestres passaram e juraram não mais ao topo voltar até terem carregado o último ser montanha acima.

Budismo na Sociedade e no Trabalho

Inicio esta conversa com a pergunta: “O que precisamos fazer para adaptar o Budismo para o Brasil?”. No meu ver, absolutamente nada! Pois não existe nada, nenhuma doutrina dentro do Budismo que já não esteja adaptada a realidade ou à cultura do Brasil... ou da Tanzânia, França, EUA, Guiné-Bissau ou Groelândia. Definitivamente nada deve ou precisa ser feito a este respeito, pois o Budismo já é e sempre foi brasileiro. Ora, se isso pode parecer estranho, remonto as palavras do Buda que dizia que o Dharma é universal, sem dono, sem administrador, se assim o é, o Budismo sempre foi tão brasileiro quanto japonês, chinês, indiano ou coreano!

O ponto é que o Budismo em sua forma litúrgica está impregnado de aspectos culturais dos países pelos quais ele se desenvolveu e floresceu. A grande dificuldade que encontramos é tentar achar um meio de adaptar tais culturas à nossa, o que se torna muito difícil devido aos aspectos socioculturais do povo brasileiro.

Para começarmos a analisar este aspecto, devemos primeiro nos perguntar qual é a verdadeira missão das ordens budistas tradicionais no Brasil. Afinal, queremos formar japoneses, chineses, coreanos, tibetanos ou queremos formar budistas? Esta é uma questão crucial para delinearmos um suposto plano de expansão para estas ordens em solo brasileiro e mesmo em outros países do continente. Temos que nos formular sempre esta questão a cada passo que damos, pois se nossa missão for criar budistas nosso objetivo está próximo e relativamente simples, mas se quisermos forçar aspectos culturais orientais alheios à nossa cultura local, estaremos cometendo graves erros. Erros que podem gerar desconfiança e severas críticas, como veremos mais à frente.

As cerimônias, práticas e costumes estão muito mais relacionados aos aspectos culturais dos países propagadores do Budismo, do que com a religião em si. Não adianta querermos impor aspectos socioculturais aos brasileiros, pois corremos o sério risco de afastar a comunidade cada vez mais dos templos e centros. Então, se retirarmos as influencias confucionistas, taoístas, xintoístas e animistas de dentro da doutrina budista, veremos que nada há de se fazer para adaptá-la ao Brasil, pois, a menos que esteja enganado, os conceitos de compaixão, respeito, honestidade e altruísmo fazem parte do cotidiano brasileiro, praticamente desde sua colonização. Não é dito que o brasileiro é o povo mais solidário do mundo? E que mais o Dharma ensina?

Cerimônias, etiqueta, orações? Tudo isso é importante, mas foram desenvolvidas a partir de cerimônias locais ou foram desenvolvidas pela tradição ou pelos fundadores das ordens, mas não por Buda Sakyamuni, pois na época deste a transmissão era oral e não há registros de cerimônias oficiais nesta época. Se as cerimônias e cânticos existem hoje, estes foram agregados ao Budismo como forma de se recitar os sutras, mas não são sua parte essencial. Por isso, devemos tomar cuidado de como adaptá-las ao Brasil, caso decidamos que isto é importante.

Em caso positivo, a atenção ao aspecto de que o povo brasileiro gosta de entender aquilo que recita ou reza, se faz necessária. É sempre bom lembrar que estamos inseridos numa sociedade católica, na qual a apalavra tem poder, poder de invocação, poder de cura ou poder de amaldiçoar, tendo isso em mente, antes de qualquer coisa, o português deve ser tido com a língua principal nos centros e templos. Antes de qualquer coisa temos que colocar esforços na tradução daquilo que se recita e, lógico, depois temos que traduzir as orações e sutras para serem recitados na língua de Camões. Ora,

As cerimônias em chinês, coreano ou tibetano são muito bonitas, mas vamos nos espelhar em nossos irmãos cristãos que perceberam que missas em latim afastavam os fiéis das igrejas, pois nela nada se entendia. O povo brasileiro tem orgulho de sua língua e isso deve ser respeitado e tido como base para uma suposta adaptação das cerimônias à sociedade brasileira.

Mas por quê é tão difícil? Por quê teimamos em achar que os modos e costumes estrangeiros são melhores que os nossos! O problema é que os discípulos percebem isso e se ressentem. Vale a pena ouvirmos novamente uma frase de Charles Darwin: “Não é a espécie mais forte, nem a mais inteligente que sobrevivem, mas aquelas com capacidade de se adaptar”. Nunca podemos julgar uma cultura na base de melhor ou pior. Lembremos que Buda dizia que nada é bom ou ruim per si, é o conceito da vacuidade, tão discutido e ensinado em todas as escolas e tradições budistas. Pois então, está na hora de praticarmos um pouco mais ativamente este conceito de vacuidade, tendo em vista que os costumes e tradições orientais não são melhores ou piores que os brasileiros, e vice-versa.

Isto é muito importante para desenvolvermos um respeito mútuo entre estas culturas. Reforço estes pontos pois vêem-se movimentos para se criar “sanghas brasileiras” nos templos e centros, o que acho uma atitude louvável, porém não devemos perder de vista que a sangha é uma só e que termos sangha chinesas, sangha coreana, sangha japonesa, sangha brasileira são apenas transitórias e que devemos ter uma única e integrada comunidade para juntos trocarmos experiências e valores, partindo do pressuposto que toda e qualquer cultura por mais distante que seja tem sempre algo de bom para compartilhar.

Isto é muito fácil fazer acontecer, basta lembrarmos que como foi dito no início, o Dharma é universal, não é nem budista por exclusividade e, assim, sendo, ninguém é dono dele e nenhuma língua é a oficial para transmiti-lo. Buda nem mesmo precisou falar nada para transmitir o Dharma para Mahakasyapa! “Sanghas brasileiras” são projetos pioneiros de altíssimo valor, mas tomemos cuidado para não gerar discriminação, nem oposição desnecessárias. Temos que ter todos os grupos em mesmo pé de igualdade nas decisões, votações e discussão de idéias, atribuindo-se o mesmo valor a todos os seres humanos que as compõe, não alijando ninguém, mas promovendo um trabalho integrados para serem uma só.

Isto nos leva a outro aspecto. A formação de monges e professores de Dharma brasileiros são de extrema importância para a propagação do Budismo no Brasil. O Budismo é cheio de escolas, tradições, linhagens e isso pode confundir as pessoas ou mesmo levar a outras com menos escrúpulos a se autodenominarem professores ou mestres sem uma formação adequada, ou mesmo fundar ordens espúrias ou sem embasamento, como ocorre desenfreadamente nos EUA.

Como sabemos, o Budismo é baseado nas experiências pessoais e o exemplo vivo é muito importante para a caminhada nesta trilha espiritual, sendo nesse ponto que a mistura de aspectos culturais sem avaliação criteriosa pode fazer estragos. Dou aqui um exemplo. Em algumas culturas orientais ter prosperidade financeira é sinal de carma bom, sinal de uma vida de méritos e de boas ações que culminaram com as riquezas materiais, depois que se atingiu uma riqueza mental, porém no Brasil a riqueza é sempre vista com desconfiança, de maneira negativa, relacionando tal situação como perpetrador de desigualdade social, sonegação de impostos e, até mesmo, imoralidade. Cada vez que damos um exemplo ou conta-se uma estória oriental envolvendo este tema geramos desconfiança. Me lembro de um monge que deu uma palestra no Brasil e que durante esta, deu cinco exemplos de bom carma usando pessoas que ficaram ricas por causa de suas boas ações. Conclusão: os brasileiros presentes ficaram revoltados e o monge perdeu a credibilidade.

Esse exemplo é muito bom para ilustrar o cuidado que temos que ter em relação as cultura local. Mas o monge estava errado? Não, não estava pois em seu país a riqueza é vista como uma dádiva, como o resultado de boas ações. Mas no Brasil não é, mas com certeza ninguém explicou isso a ele. Também não podemos criticar os brasileiros que se sentiram ultrajados, não podemos criticar nem um nem outro, mas como o próprio Buda fazia e está ilustrado nos sutras para quem quiser comprovar, devemos escolher as palavras e os exemplos para cada tipo de audiência que temos, analisar se os aspectos que vamos comparar são válidos ou se não vai causar mal estar. É certo que ensinar o Dharma numa prisão é bem diferente de fazê-lo para um grupo de estudantes secundários.

A história do país está repleta de pessoas que usaram a fé do povo para enriquecimento ilícito e ainda o fazem e é por isso que exemplos e depoimentos envolvendo dinheiro sempre são recebidos com desconfiança e por isso que as doações ao templos são tão poucas vindas de brasileiros. Sobre este tema já ouvi os maiores absurdos, mas o fato é que temos medo de ser enganados e é por isso que o brasileiro dificilmente doa parte de seus ganhos ou posses para um templo ou centro. Basta conhecer a história e a realidade do país para concluir isso.

Desta forma, voltamos no ponto de que a criação de condições para que brasileiros possam ensinar brasileiros, eliminando assim incidentes diplomáticos culturais e desenvolvendo a confiança naquilo que falamos, é a base para termos um Budismo compreendido em terras brasileiras. Em nosso país falar sem vivenciar, sem o exemplo próprio é o passaporte para o descrédito, pois gera desconfiança e suspeitas de manipulação. Quase sempre se escuta em palestras de monges e mestres estrangeiros que estes ensinam um Dharma inaplicável, impossível de ser vivido, a menos que se encerre num monastério ou numa floresta, este ponto é muito sério pois depende de quem ensina transmitir a mensagem de forma coerente.

Se queremos falar da aplicação do Dharma na família, temos que utilizar aspectos familiares para exemplificar o modo de se fazer isso, como também devemos atrair as famílias para os templos e centros para que estas contribuam com suas experiências no lapidar sadio dos desafios da aplicação dos conceitos budistas na educação de nossos filhos e na condução de nossos trabalhos.

Se analisarmos as pessoas que freqüentam os centros e templos no Brasil, veremos que a maioria dos budistas que conhecemos são sozinhos ou freqüentam reuniões e práticas nos centros de Dharma sem a família ou companhia. A partir daí, começamos a observar este fato e a reviver as cerimônias nos centros de Dharma que freqüentamos e realmente percebemos que poucas são as família completas que vão ao centro, salvo famílias de imigrantes que já são budistas tradicionalmente. Na sua grande maioria, são pessoas que estão sempre sozinhas nas práticas e, se não são solteiras, ou separadas, seus companheiros e companheiras não os acompanham, a não ser que fosse uma visita de um mestre famoso ou importante proferindo palestras, mas mesmo assim vemos muitos grupos de amigos e poucas famílias.

Porém, tende-se a contrapor esta visão quando visitamos templos que tem suporte das comunidades orientais. Lá realmente vemos famílias inteiras nas práticas e cerimônias, mas as famílias vão inteiras por imposição dos pais, pois os jovens, quando vão, o fazem por pura obrigação diante da imposição dos pais. Mas isso não se passava conosco também? Não resistíamos bravamente às missas e cultos?

Então chega-se a conclusão de que o Budismo no Ocidente sofre do que pode se chamar de Crise da Conversão que nada mais é do que a falta da identidade cultural do Budismo com a sociedade ocidental, sendo que quase 100% dos budistas no Brasil e no Ocidente, como um todo, são convertidos, tirando-se obviamente, a porção constituída de famílias que emigraram de países onde o budismo é a religião oficial ou está inserido culturalmente na sociedade. Desta forma o Budismo ainda não teve tempo de adquirir forma dentro da cultura dos países ocidentais com forte tradição cristã enraizada na sociedade. Isto pode ser percebido nas expressões idiomáticas cristãs para referenciar situações budistas como o famoso e popular: “Graças a Deus!”, utilizado largamente por budistas, embora seja uma expressão puramente cristã.

Por outro lado, o Budismo quase sempre é visto no Ocidente como esoterismo e por muitas vezes o vemos dentro do mesmo caldeirão de ciências esotéricas e ocultistas, bastando entrar nas principais livrarias e procurar por livros budistas na seção de Religiões. Dificilmente você irá encontrá-los lá, pois para as livrarias e para muitas editoras, somente o catolicismo e o judaísmo são religiões. O resto é esoterismo! E isso termina sendo permeado na percepção cotidiana, dando a impressão de que o Budismo, uma religião de 2.500 anos, é uma filosofia barata e que Buda serve somente para o colocarmos em cima de um pote de arroz virado de costas para a porta., pois, por mais caricato que possa parecer, é dessa foram que os brasileiros vêem Buda. Porém isto é muito errado e só mostra a condição errada que esta religião é vista nos países ocidentais e vemos isto refletindo na constituição das famílias budistas “convertidas” por aqui.. Mas, é fato que se o Budismo estivesse inserido na sociedade com uma religião estabilizada e não uma “crença” esotérica, haveria menos preconceito e menos reticências.

Dificilmente vemos os centros e templos budistas por este prisma da solidão de seus membros ocidentais, mas a situação está aí para ser constatada. Então chegamos a conclusão que realmente fora das comunidades chinesas, japonesas, tailandesas e afins, nossa religião ainda é uma semente. Temos que tentar trazer a família ocidental para os centros através de atividades que interessem a seus membros, tanto individualmente quanto em grupo. Se as igrejas cristãs e judaicas podem fazer isto, nós, budistas, também podemos e este seminário é uma das iniciativas que temos para tentar ampliar a visão dos Ensinamento e Preceitos de Buda dentro da família brasileira, utilizando as experiências dos convertidos e suas opiniões.

É nosso desafio criarmos condições para que as famílias freqüentem os templos e que os jovens se interessem, mas talvez nunca tenhamos perguntado a estes jovens o que eles querem ou como eles querem ouvir o Dharma, talvez nossa arrogância não permita que sejamos jovens e adaptemos nosso discurso às suas realidades. Jovens gostam de ser úteis, eles são movidos por ideais, então temos que aproveitar estes potenciais, não adiantando obrigá-los a nada, nem impormos qualquer ética para eles. Todos já fomos jovens: o que queríamos? Com que nos preocupávamos? Perguntemos isso aos nosso jovens de hoje. É tão fácil!

As outras religiões podem nos dar ótimos exemplos de como fazer. “Vamos a lutas!”, como diria a Rev. Sinceridade, mas vamos sem arrogância ou pretensões de que temos algo para ensinar, pois temos sim, algo para aprender e isso deve começar em nossa família, no nosso lar.

O grande começo para uma educação budista para nossos filhos é desenvolver a compaixão em todos os momentos de nossa vida cotidiana. Em casa, com parentes, amiguinhos, pedintes na rua, com as pessoas que nos relacionamos temos que estar atentos em provocar isto em nossas crianças e com isto praticamos e desenvolvemos a nossa própria compaixão.

O exemplo para nossos filhos deve ser sempre preservado e utilizado como ponto de partida para passarmos conceitos e idéias para eles de forma simples e contundente. Veja, é mais fácil mostrarmos a eles o que fazer do que nos preocuparmos com explicações lógicas, bem como, não podemos cobrar deles atitudes que devam nascer do que explicamos, pois é muito mais simples que as crianças copiem as atitudes de seus pais e familiares. Se eles fazem isto com seus amiguinhos porque não podem fazer conosco?

Despertar e incentivar o lado bom e compassivo de nossas crianças é um grande passo para explicarmos os princípios básicos do Budismo para elas. Se conseguirmos mostrar e passar à elas os conceitos de fazer o bem e preservar os seres vivos, já conseguiremos transmitir grande parte do ensinamento budista. A compaixão deve ser tomada como um sentimento que leva a uma atitude constante de promover o bem e fazer boas ações de modo a que isto fique inerente a qualquer situação que nos encontramos durante a vida.

Um bom exemplo é a relação da criança com os animais, geralmente elas vêem um animal grande como vacas, cachorros, gatos e pássaros como seres vivos, mas animais pequenos ou que eventualmente lhe fazem mal são sempre descartados como seres e passam a ter seus dias contados na mão de nossos pequenos. Muito disto se deve também as nossas atitudes, pois estamos sempre exterminando mosquitos, moscas, baratas e insetos diversos. Sem pensar, estamos com chinelos e panos nas mãos para eliminar pequenos animais de nossos lares. Mas dificilmente lembramos que estes animais por menores que sejam são também seres vivos. Afinal, que diferença há entre a vida de um elefante ou de uma minhoca? Por que matamos um mosquito com tanta facilidade? Por que nos faz mal? Por que nos pica?

Há uma estória budista que conta que um monge vê um escorpião se afogando em uma poça d’água e salva o pequeno animal com sua mãos nuas e toma uma ferroada do bicho, mas quando o monge o coloca no seco ele volta para a água e pacientemente o monge o recolhe novamente e toma uma nova picada e o escorpião volta para a água de novo, num ciclo incansável. Um outro monge vê a cena e se aproxima imaginando a dor que seu colega está sentindo pois a picada de um escorpião provoca uma das dores mais lancinantes no ser humano, e pergunta o porquê daquele gesto, ao que o monge com a mão inchada responde: “a índole deste animal é se defender com sua cauda venenosa, a minha é querer seu bem sempre, não importando como”.

Esta estória ilustra bem o sentimento budista em relação aos seres sencientes e temos que cultivar em nossas crianças este respeito pelos animais e pelos outros seres humanos. Não quero dizer que elas devem brincar com escorpiões ou qualquer outro animal peçonhento ou que lhes façam mal, de maneira alguma, mas quero dizer que se mostrarmos a elas que este respeito vai ser bom para os animais e para si próprios já teremos plantado uma sementinha dentro da consciência de cada uma delas.

Em vez de matarmos mosquitos podemos instalar repelentes em nossas casas. Em vez de esmagarmos baratas, podemos pegá-las com um copinho e colocá-las para fora de casa. Se estamos no mato e vemos uma cobra podemos nos afastar., afinal ela só ataca quando encurralada.

Em suma, podemos encontrar meios alternativos para evitarmos ao máximo matar intencionalmente os animais que nos cercam. Digo intencionalmente porque somente o fato de andarmos e sentarmos já comprometemos a vida de animais pequenos e microscópicos. Pois então, a palavra de ordem é intenção.

No Budismo, dizemos que a ação tem quatros momentos distintos, a intenção da ação, a preparação da ação, a ação em si e o regozijo da ação executada e que para a ação ser completa devemos seguir estes passos efetivamente. O termo carma significa justamente ação e geramos nosso carma em função das ações que tomamos em nossas vidas. Assim, quando as quatro etapas de uma ação são completadas há uma geração de carma em nossas vidas, porém a “potência” deste carma adquirido pode variar se umas destas etapas é interrompida. Um exemplo é um indivíduo que comete uma ato negativo e arrepende-se logo em seguida sem se regozijar, carma ruim será acumulado, mas em menos quantidade. Um Lama tibetano uma vez contou sobre as proporções de acúmulo de carma em relação as etapas não completadas das ações cometidas, mas acho que não é relevante aqui, pois o fato é que temos que analisar nossas ações antes que aconteçam e já na primeira etapa: a intenção. Também não quero dizer que podemos fazer qualquer coisa e depois nos arrependermos que nosso “contador” de carma vai ficar passivo, mesmo porque, não podemos anular os efeitos e as causas de nossas ações por maior que seja nosso arrependimento.

Se desenvolvermos uma intenção pura para nossas ações é um grande passo para efetuarmos ações meritórias em nossas vidas e darmos este exemplo para nossas crianças será mais fácil evitarmos ações negativas do que corrigirmos ações impensadas.

A compaixão também está relacionada a benevolência, ao desapego e a prática da bondade com seres humanos. O fato de sempre encontrarmos pessoas que necessitam de nossa ajuda é uma fonte de prática para nossa compaixão sem limites. Vale lembrar da frase do mestre Hsin Yun, “o mérito é duplo quando praticamos o bem, para quem faz e para quem recebe”, assim, quando praticamos o bem estamos gerando mérito para o objeto de nossa benevolência além de nós mesmos.

Implicarmos isto na nossa vida diária é parte dos ensinamentos budistas e fortemente referenciado nos Votos de Bodhisattva das escolas Mahayana, de Budismo. A essência destes Votos é justamente praticar o bem e a compaixão para com os outros em primeiro lugar, mesmo em relação a você próprio, ou seja, policiar nossa mente em função da prática de ajudar os que precisam no nosso convívio diário.

Se prestarmos atenção estamos rodeados de pessoas que possam ser alvo de nossa compaixão, dentro de casa, em nosso trabalho, no nosso clube, no círculo social que estamos inseridos. Porém, devemos sempre ter em mente que a compaixão não pode ter como objetivo a nossa própria promoção, nosso jubilo, nem ser o combustível de nosso próprio orgulho. A compaixão deve ser espontânea e visar o bem-estar alheio, porém sei bem que desenvolver uma pura compaixão, livre de interesse pode ser algo difícil na sociedade que vivemos hoje, mas se em nossa célula social, nossa família, possamos plantar uma semente, uma árvore florescerá e espalhará suas sementes pela região e assim novas árvores florescerão. Os frutos desta árvore, nossos pupilos, serão os grandes e beneficiados por estes preceitos, desde que reguemos nossa semente com água pura, pois como me disse uma vez a mestra Sinceridade, “o Budismo é como uma semente, depois que vira uma árvore, toda sua essência está nela e poucos lembram de que ela já foi uma semente”, isto quer dizer que quando plantamos os preceitos budistas em nossa família, temos que fazê-lo de forma a germinar com força para que naturalmente suas raízes se emaranhem na educação de nossos descendentes, pelos motivos que já apresentei anteriormente e conseguirmos construir mais famílias budistas de forma natural, já que a maioria destas no ocidente seja composta de budistas convertidos de outras religiões.

Talvez estejamos gastando muito templo divulgando uma cultura estranha ao invés de nos ater às bases que compõe uma comunidade, pois o que culturalmente pode ter dado certo num determinado país, não quer dizer que este sucesso se repetirá aqui ou em qualquer outro país. Simplesmente, não há esta garantia. Outras religiões acharam esta fórmula, cabe a nós construirmos nossas equações.

Temos que dar fórmulas para a comunidade utilizar no seu dia-a-dia. A pergunta que mais se ouve num seminário budista é “como levo estes conceitos para a minha vida diária?” Se esta pergunta permanece, então, é porque não estamos sendo competentes em mandar nosso recado. Como meditar trabalhando? Como um mantra me ajuda a criar meus filhos? Como o Nembutsu me ajuda a ser uma pessoa melhor? Como ser compassivo se trabalho numa empresa que me cobra resultados? Estas são perguntas comuns que vemos nas listas budistas nas Internet,. Nos seminários, em retiros. E uma outra pergunta fica no ar: estamos preparados para responder a isso usando aspectos da cultura e da sociedade brasileira? Ou o que nos resta são exemplos que muitas vezes não se encaixam nos conceitos locais?

Nestes casos, não adiantam os sutras, abhidharma ou cerimonias, nem adianta trazer aspectos das sociedades orientais para a discussão, isto é o aqui e o agora e é justamente nestes casos que monges e professores brasileiros agregam um enorme valor trazendo para a luz das argumentações suas vivências diárias e desenvolvendo analogias produtivas e encorajadoras para as pessoas.

É dito que o mundo dos negócios talvez seja o mais desafiador de todos para aplicarmos os ensinamentos de Buda. É um mundo selvagem, um jogo, no qual o indivíduo não tem valor, apenas resultados, porém, ainda que inseridos neste ambiente podemos ser honestos, íntegros e humildes, mas temos que levar em conta que estes três itens são mais importante que fama e fortuna, transformando esta situação no grande desafio de nossas carreiras profissionais. Desafio maior para aqueles que ensinam o Budismo, onde honestidade, integridade e humildade devem ser tidos como base para que a própria religião não caia em descrédito.

Como disse o monge Meiho Guensho: “Empresários que pensam apenas em seu enriquecimento pessoal não são verdadeiros empresários. Os legítimos são os que se encantam com a construção de uma grande obra. Os que pensam em acumular para si são predadores, sem visão da totalidade. Falta-lhes espiritualidade. Visão abrangente. Empregados que estão sempre cogitando de como superar o colega, de como obter vantagens espúrias dentro da empresa, são salteadores, não são trabalhadores. Assim, começa a surgir a necessidade de treinar as mentes para que elas ampliem sua percepção do mundo. Para que os egos se expandam e consigam perceber o todo que nos cerca. Dentro da empresa significa compreender o objetivo último da empresa e sua inserção no mundo empresarial. Uma maior compreensão das práticas espirituais implica em entender o outro, ajuda-lo, ter espírito de equipe. Abdicar do egoísmo que atrapalha o desempenho e geram conflitos dentro das equipes. Para diretores e gerentes significa a satisfação de olhar o mundo com olhos de realizador mais profundo do que meramente a do acumulador de posses. Estas são em última instância impermanentes e perecíveis.”

Para iniciarmos nossas conclusões, ressalta-se a necessidade de planejamento com métricas definidas de curto, médio e longo prazo das ações a serem tomadas para que possamos integrar cada vez mais e mais o Budismo na vida das pessoas. Talvez uma atividade importante seria promover uma maior integração dos diversos centros e templos no Brasil, ainda que divididos por cidade ou região para que não haja duplicidade de ações e possamos fortalecer tanto ações sociais, mas também ações relevantes à sangha de praticantes e aos templos em geral. Um outro ponto importante é a incessante necessidade de traduções acuradas de textos budistas e sua divulgação incessante, bem como a unificação de termos e eventualmente de terminologias, que garantam um perfeito entendimento, não importando a escola ou tradição. Enfim, para termos um Budismo brasileiro basta que sigamos os ensinamentos de Buda e nada mais precisa ser feito, mas se quisermos algumas outras coisinhas a mais adaptadas, devemos esperar um pouquinho mais, mas o importante é que possamos exercitar nossa mente búdica independente de prostrações ou cerimônias religiosas, pois como diz o poema de Asahara Saichi:

Ó Saichi, onde fica a tua Terra da Plenitude?
Minha Terra da Plenitude fica aqui mesmo.
E onde fica a fronteira
Entre este mundo e a Terra da Plenitude?
Os olhos são a fronteira.

(palestra proferida na inauguração do Templo Zu Lai, em Cotia, SP)

Vivendo o Nembutsu – Os Seis Paramitas e a Vida Moderna

Antes de mais nada gostaria de agradecer à Comunidade Honpa Hongwanji, da qual faço parte há 4 anos, pelo convite de estar aqui com vocês hoje e dividir um pouco de minha experiência como Budista convertido e brasileiro. Quando recebi o convite do Rev. Mário Kajiwara fiquei honrado com a oportunidade pois acredito que o futuro de nossa comunidade e do Budismo no Brasil está nas mãos de vocês aqui presentes hoje e fico lisonjeado em ser ouvido por todos aqui. Me pareceu uma ótima oportunidade de trocarmos experiência entre uma pessoa de origem italiana que se converteu ao Budismo e segue uma linhagem japonesa. Ok! Ok! Pode parecer o “samba do bosatsu doido”, mas esta situação adiciona itens à minha vida bastante interessantes para podemos falar sobre um Budismo mais adaptado às situações cotidianas, uma vez que também sou casado, tenho duas filhas, uma de 9 e outra de 5 anos, e pretendo, um dia, me ordenar monge em nossa Ordem.

Em minha saga para estabelecer sobre o que iria falar com vocês lembrei-me que poderia transmitir aqui um pouco de minha experiência nestes quase 25 anos de estudos e buscas, porém também lembrei-me que Buda Shakyamuni nos transmitiu muitos ensinamentos, 84.000 dizem alguns, e um muito importante e que tem me norteado por muito tempo são os Seis Paramitas ou as Seis Perfeições, ensinamento referenciado sempre por vários mestres budistas, incluindo nosso fundador, Shinran Shonin e é tema de uma das comemorações mais importantes de nosso calendário, O-Higan. Então vamos tentar conectar tudo isso, começando pelo começo.

Deixem-me contar um pouco de minha saga pessoal na tentativa de atravessar para a outra margem, nesses praticamente 27 anos de estudos e dúvidas, muitas dúvidas, sobre o Budismo. Nasci numa família católica pouco praticante, há 35 anos, mas desde cedo sempre me intriguei com assuntos metafísicos e também senti uma grande atração por assuntos orientais tanto a cultura como religião. Tendo crescido num ambiente católico, com 13 anos fui fazer um retiro cristão e comecei a freqüentar uma comunidade de jovens e a estudar religião em reuniões semanais. Nesta época as dúvidas floresceram de maneira contundente e comecei a analisar os aspectos do Catolicismo por uma via mais concreta e menos dogmática. Neste mesmo período comprei um livro quase que por acaso numa livraria já fechada em São Paulo. Tal livro chama-se “Introdução ao Zen Budismo” do Dr. Suzuki que depois vim a descobrir que foi o primeiro livro de muitos budistas brasileiros e americanos. Não se bem quanto aos outros, mas eu não entendi nada do livro naquela época e mesmo hoje ainda não compreendo muito, podem ter certeza.

Mas uma das poucas partes que entendi explicava sobre a condição humana presa num ciclo incessante de renascimentos, direcionado pelos resultados das ações de cada pessoa e como esses resultados poderiam afetar a vida do indivíduo e de todo os sistema social e natural que o cerca. Este foi meu ponto de partida na tentativa de encontrar respostas para minhas fortes indagações metafísicas e espirituais. Nesta fase da minha vida e mesmo na atual, a história de vida de Buda Shakyamuni sempre foi uma referência para mim, pois ele foi um jovem, um adolescente, assoberbado de dúvidas e durante toda sua juventude e parte de sua via adulta procurou respostas em todos os cantos. Creio que esta parte inicial da vida de Buda não foi muito diferente da minha ou da de vocês... a não ser pelos 3 palácios magníficos que ele tinha!!!

A partir deste livro comecei a estudar mais e mais e comecei a praticar também num templo tibetano da escola Nyingma em São Paulo, depois indo para um templo Ch´an, no qual comecei a ensinar o Dharma para pessoas iniciantes que nos buscavam. Foi nesta época que entrei em contato com a doutrina da Terra Pura primeiro chinesa e depois japonesa, o que me convenceu ser uma doutrina aplicável a qualquer estilo de vida e a qualquer idade, não havendo limitadores de lugar, tempo ou condição social para que se possa praticar, afinal de contas para recitar o Nembutsu somente precisamos conhecer as sílabas, pois mesmo um mudo ou um cego podem assim fazê-lo. Diante de um conhecimento um pouco maior desta doutrina, me convenci que era uma doutrina definitiva, coerente e altamente fácil de ser transmitida, embora, para as mentes ocidentais, algumas vezes difícil de ser compreendida por causa da mente cristã que permeia a sociedade ocidental.

Neste meio tempo, me casei com uma pessoa que conheci naquela comunidade cristã e tenho hoje duas filhas. Todas, incluindo minha esposa, budistas. Creio que somos uma das primeiras famílias budistas brasileiras de pais convertidos, com filhos que nasceram budistas e isso nos dá uma responsabilidade dobrada pois temos a obrigação de passarmos para nossas filhas as bases da religião de nossa família, desde os conceitos, as práticas e principalmente a ética.

Neste período como budista, pude verificar que muitas perguntas são recorrentes indagadas por brasileiros e até mesmo por integrantes das comunidades orientais. Acho que a campeã é a famosa “como posso ser budista e aplicar os conceitos desta religião na minha vida diária?” e outra muito importante é “como podemos transmitir o Dharma para um jovem ou uma criança?”. São perguntas que necessitam de dois lados para serem respondidos: um deles é o que os professores, monges e Comunidade podem proporcionar e outra é o que as pessoas estão dispostas ou vêem valiosos para suas vidas. É sempre bom lembrar que o Budismo nunca teve um caráter proselitista no mundo, ou seja, nunca foi atrás de adeptos, nem fica no farol pregando, competindo com malabaristas mirins.

Acho também que a primeira parte precisa ser comunicada sobre como a segunda quer ser abordada e que tipo e como querem receber mensagens sobre o Budismo. Poderia dizer também “Se quiserem receber”, mas acho que várias dezenas de jovens dos quais vários viajaram mais de 500 quilômetros para estar aqui, devem estar alguma coisa interessados no Congresso e sobre o que temos a dizer, do que simplesmente a integração e descontração que o evento pode proporcionar. Assim, convoco a todos para um diálogo franco com as lideranças de nossas comunidades para que possamos alinhar as expectativas de vocês com as capacidades atuais e futuras do Hongwanji no Brasil.
No que tange a segunda parte, ou seja, vocês, jovens do Hongwanji gostaria de lembrá-los de uma boa parábola japonesa: “A Rã que vive no poço”.

Havia uma rã que vivia num poço, próximo ao oceano que ali havia nascido e dali nunca tinha saído pois não conseguia saltar tão alto. Mesmo porque ela desconhecia o mundo ao redor do poço pois, como nunca o havia visto, para ela não havia nada além das paredes de pedra de seu poço. Desta forma, ela ignorava o imenso oceano ao seu redor e que dele somente ouvia o seu som, ignorando por completo o que realmente era. Ela não só ignorava o oceano, ou seja, a condição do mundo onde vivia, mas também ignorava sua própria condição de “rã presa no poço” e para descobrir que vivia num poço e que havia um oceano a poucos metros ela teria que sair dali.

Mas um dia uma garça começou a sobrevoar o poço e viu a pequenina rã ali a coaxar (rã coaxa?) . Pousou na borda do poço e perguntou a rã porque ela vivia num poço, tendo um oceano tão grande a seu dispor do lado de fora. Surpresa com a pergunta do pássaro, ela reagiu confusa dizendo que o pássaro de nada sabia e que o poço era seu mundo seguro e confortável e que nada poderia existir além dele.

Diante da reação da rã, a garça voa para longe, deixando-a. Depois de algum tempo, a rã reflete sobre o que a garça disse e começa a questionar se realmente não haveria um mundo além das paredes de pedra do poço e que talvez esteja equivocado e que a história daquele pássaro poderia ter algum fundamento. Na outra vez que o pássaro por lá sobrevoou, a rã o chamou e desculpando-se pela atitude na vez anterior pediu que a garça a levasse para um passeio em suas costas. A garça, muito prestativa, concorda com o pedido, colocando a pequena rã em suas costas e alçou vôo. A certa altura a rãzinha olha para baixo e vê seu pequeno poço, essa compreende quem era, onde morava e que havia um oceano imenso e desconhecido ao lado de sua casa que nunca havia visto. Ou seja, a pequena rã experimentou duas realizações simultâneas, quem era e onde estava inserida, dissipando suas dúvidas existenciais. Ela vê como era pequeno seu poço e como era imenso o oceano, alguns autores dizem que esta parábola demonstra a condição humana antes de ter contato com o Budismo.

As pessoas se vêem como entes isolados do mundo achando que suas atitudes se encerram em si próprios e desconhecem suas condições, seus poços onde vivem e também desconhecem o oceano ali ao lado, ou seja a grande sabedoria búdica que está ao nosso dispor.

Me espelho muito nesta rã e creio que muitos de vocês também, pois antes de termos um mínimo contato com o Dharma, estamos na mesma condição do poço e basta que uma pequena fagulha nos atinja para que uma interminável lista de dúvidas se forme sobre nosso poço e sobre a possibilidade de haver um oceano nos rodeando.

Mas onde podemos encontrar uma garça para com a qual possamos alçar vôo? Eu vejo que temos muitas garças ao nosso redor, embora tenhamos o péssimo hábito de enxotar esses pássaros de nossas vidas. As primeiras garças que vejo em nossas vidas são nossos pais. Vocês já perceberam a quantidade de conselhos que eles nos dão e nós ignoramos e muito tempo depois descobrimos que eles tinham razão? Tá bom, tá bom, alguns não, mas a maioria sim. Pelo menos tenho certeza que aqueles relacionados com o Dharma são certos e diretos. Mas nós enxotamos eles, não? “Sai do meu quarto que você não sabe nada!”; “Os tempos mudaram”; ou ainda, creio que a mais freqüente desde o meu tempo: “Não enche o saco, pô!”.

Mas por mais velhos e antiquados que nossos pais possam ser o Budismo, o Nembutsu, a Terra Pura são atemporais, podemos falar deles por anos e anos e sempre serão atuais. O que talvez tenhamos que moldar é a maneira como fazemos isso. Os exemplos a serem usados, a forma de se falar deve se moldar mas sofrimento será sofrimento e karma será karma até o fim dos tempos.

E continuando a falar em garça, digo que as outras que temos são os “bons companheiros”, ou seja, os monges e professores de Dharma que cruzam nossas vidas e a quem também pouco ouvimos, só não os mandamos não encher o saco, mas até acho que alguns pensam assim. Mas são das bocas dessas pessoas que o Dharma flui e que podemos, muitas vezes entrar em contato com mecanismos para compreender nossa verdadeira condição humana e do nosso mundo ao redor. Cometemos o erro de achar que os monges nos darão respostas prontas e imediatas para nossas inquietações. E nos comportando como rãs que enxotam as garças, ignoramos suas palavras e seus conselhos.

Então para podemos alinhar nossas expectativas com as capacidades de aprendizado que nos são oferecidas temos que aceitar nossas condições ranárias e iniciarmos nossa saída do poço e isso significa, no mínimo, um pouco de confiança mútua. Costumo pautar, ou pelo menos tento, minhas ações por alguns itens simples ensinados por Buda e realçados por vários mestres budistas. Esse é um ponto para começarmos a falar sobre Budismo em nossas vidas e como encaixa-lo seria analisarmos as Seis Perfeições que nos foram ensinadas por Buda como uma maneira de se viver o Budismo em nossas vidas. São elas a generosidade (Dana), a ética (Shila), a paciência, que eu preciso aprender a ter (Kshanti), o esforço (Virya), a concentração (Dhyana) e a sabedoria (Prajna). Esses paramitas ou Perfeições ou higan, em japonês são os meios pelos quais o Buda nos guia da margem mundana do mundo para a outra margem da Terra Pura. Este conceito de transposição de margens deu origem ao O-Higan cerimônia na qual expressamos nossa gratidão por termos sido despertados pela Sabedoria e Compaixão Infinita de Buda Amida, tal como a rã foi desperta pela garça.

Das Seis Perfeições acho que o mundo e principalmente nosso país recentemente carece de “Shila”, ética, para que nossas ações sejam carregadas de alinhamento moral e possam ser direcionadas segundos princípios de Prajna, ou seja, sabedoria, a Sabedoria Infinita de Buda. Agindo com ética já é um grande passo para vivermos o Budismo em nossas vidas pois a ética garante que nossa ações sejam retas. Se a cada vez que temos que tomar uma ação seja em relação aos amigos, família, escola... que seja embasado nas ética que Buda nos apresenta e é resumida pelos outros paramitas, paciência, concentração, esforço, generosidade e sabedoria.
A paciência nos ajuda a pensar mais antes de agir, a avaliar a situação usando a sabedoria, para entendermos a situação presente e futura e as conseqüências dos resultados daquilo que pensamos e executamos.

Em termos de sabedoria, esta se mostra indispensável para vivermos de forma ética e serena; é a partir da Sabedoria Infinita de Amida que recebemos a Luz do Outro Poder que nos impele para a outra margem, então é através dela que pautamos as análises da vida e a compreensão da nossa condição humana. A aquisição da sabedoria está mais associada a ouvir o Dharma e verificar a transformação que esta atitude nos traz do que a sabedoria gramática, aquela contida em livros. A Sabedoria Infinita de Buda Amida é vivência, não teoria; é realização e não pesquisa; é despertar e não dormir; e é desta forma que vamos atravessando o oceano de nossas vidas. Se aceitarmo-nos como somos e como estamos inseridos no mundo, entendendo que a cada atitude nossa afetamos o mundo, estaremos utilizando nossa sabedoria.

A generosidade é um exercício de altruísmo, mas não necessariamente uma doação material, mas uma doação moral e ética. Um posicionamento livre de troca e julgamento. Confundimos muito generosidade com esmolas e não há coisa mais antagônica. Generosidade está relacionado com compaixão, com eliminação do ego individual e permeia nosso modo de vida. Ser generoso é ser amigo na última concepção da palavra, é ser filho, irmão, sem pedir algo em troca. Eu sei, agora muitos estão pensando: “Ah! É muito fácil falar!”. Mas se não começarmos em algum lugar com algum esforço (Virya) que é um outro paramita, jamais poderemos viver no Nembutsu, porque nosso esforço próprio, nosso Próprio Poder, deverá ser suplantado pelo Outro Poder, o Poder de Amida. O esforço é um esforço puro, sem julgamento e expectativa de troca. É o vôo da rã, é a vontade sair do poço e tirar as dúvidas, pois essas dúvidas que nos surgem são dissipadas quando nos sentimos compelidos a voar nas costas das garças. Esse esforço de voar, essa vontade é a manifestação do Outro Poder.

A concentração nos dá a virtude de focar para compreender, focar para transformar. Quando ouvimos o Dharma e nos concentramos nas palavras daqueles que nos falam e permitimos que tais palavras destruam preconceitos e conceitos errôneos, tal concentração está contribuindo para nossa sabedoria e ao desenvolvimento de nossa ética também. A concentração é desenvolvida de formas diferentes em várias escolas budistas. No Jodo Shinshu, nossa concentração é focada na contemplação do Dharma, dos Sutras, Gathas e as cartas de nossos mestres, pois é através deles que poderemos experenciar a transformação necessária para atingirmos a outra margem, embalados pelo barco da Compaixão Infinita de Amida.

Depois desse pequeno passeio pelos paramitas, voltamos ao primeiro que descrevi que é justamente a ética. Uma juventude ética vai gerar um futuro brilhante para nossa sociedade. Pode parecer piegas, mas olhem para situação político-social de nosso país. Ela foi gerada por condições que uma juventude gerou um dia, no passado. Isso que vemos é uma conseqüência natural de ações errôneas do passado e como sabemos não podemos mudar as conseqüências, os efeitos, temos que alterar as causas e condições. Se somos impelidos a agir com essas Perfeições, mesmo que num contexto diminuto, já estamos contribuindo para uma situação melhor para nossa sociedade e país. Não nos basta cobrar, a execução é ponto crucial para a transformação. E executar é agir e para agir temos que o fazer com no mínimo sabedoria e ética para que o efeito seja benéfico e duradouro.

Para mim recitar o Nembutsu é um agradecimento por ser um rã (e das grandes no meu caso!) e uma certeza que estou voando e que consegui ver o Oceano. Acho que tive várias garças em minha vida e tendo a ver todas as pessoas e situações que me cercam como garças, nas quais pegarei carona várias vezes. É certo que o cantinho do poço é mais gostoso e confortável, mas afinal andamos centenas de quilômetros para estar aqui e isso também já é um baita esforço, que com certeza nos foi impelido por uma Sabedoria além de nossas vontades egóicas. Sendo assim só me resta juntar as mãos e recitar... Namo Amida Butsu! Namo Amida Butsu! Namo Amida Butsu!


(por Mauricio Ghigonetto – Shaku Hondaku – 39o. Congresso Sul-Americano de Jovens Budistas – Araçatuba, SP)

O Oceano - Parábola Tradicional Jodo Shinshu

"Numa noite um navio parte de uma ilha tropical. Depois de muitas horas em alto mar, um marinheiro caiu pela amurada mergulhando na água. Ninguém no navio notou que faltava um homem e continuaram navegando em sua rota. A água estava gélida e as ondas estavam agitadas. Estava assustadoramente escuro. O marinheiro se sacudia freneticamente para se manter acima da água.

Ele então começou a nadar em direção a uma ilha que ele viu antes de cair. Tinha perdido totalmente seu senso de direção e não estava seguro de que estava indo para a direção correta. Embora fosse um bom nadador, seus braços e pernas logo começaram a enfraquecer, seus pulmões estavam cansados e ofegava por ar. O marinheiro se sentia perdido e totalmente sozinho no meio do oceano. Seu fim parecia estar próximo. Sendo tomado pelo desespero, suas energias se esvaíam, como a areia de uma ampulheta e começou a engasgar com a água que batia em seu rosto, sentindo seu corpo sendo sugado para as profundezas.

Neste instante, ele ouviu uma voz das profundezas do oceano que dizia: "Livre-se! Livre-se de seu esforço! Está tudo certo, você está bem! Namo Amida Butsu!”

O marinheiro ouvi a voz e parou com seu esforço inútil de tentar nadar por suas próprias forças. Ao invés disso, virou de costas, com os cotovelos abertos e as mãos atrás da nuca, como se estivesse deitado em seu gramado numa confortável tarde de verão. Ele estava surpreso por ver que o oceano o segurava, o suportava e o levava a qualquer parte, sem nenhum esforço de sua parte!

Agora, a água parecia quente e as ondas estavam calmas, pois sem nadar contra elas ele apenas subia e descia com seu passar. O oceano que antes parecia querer sugá-lo agora cuidava dele e ele estava agradecido e feliz em saber que tudo estava certo! Compreendeu, então, que tudo sempre esteve certo e que ele sempre esteve bem! Ele apenas não sabia disso. O oceano não mudou em nada. Mas alterando sua maneira de pensar, a relação do marinheiro com o oceano foi que mudou. O mar transformou-se de um inimigo perigoso e assustador, num amigo que abraça e apoia.

O marinheiro sabia que não podia boiar para sempre no meio do oceano. Se não tivesse nenhum outra obrigação ou responsabilidade, ele poderia ficar ali e desfrutar desta calma infinita. Mas, a imagem de sua mulher e filhos pequenos esperando em casa ansiosamente por sua volta o inspirou a tentar alcançar a costa.

Ele começou a nadar como antes, mas com uma importante diferença. Agora, ele confia no oceano como um ente querido que protege e consola. Ele sabe que toda vez que se cansar, pode deixar-se levar, pois o oceano o apoiará. Mais importante, ele agora sabe que enquanto nadar, será o poder do oceano e não o seu próprio que o manterá acima da água. Sim, ele move seus cotovelos para nadar, mas aprendeu que pode boiar sem se esforçar.

Agora que se sente seguro nos braços do mar, o marinheiro pode pensar em como achar uma ilha. Estuda a posição das estrelas e da lua, bem como a direção dos ventos. Usando seu treinamento como marinheiro, este imagina onde estaria a ilha mais próxima e se move em direção a ela. O nadador não tem nenhuma garantia de que escolhera a direção correta, mas agora tem certeza de que o oceano não o deixará se afogar. Eventualmente ele encontrará a ilha. Em retribuição por esta nova confiança e alegria, o marinheiro escuta a si mesmo murmurar: “Namo Amida Butsu! Namo Amida Butsu! Namo Amida Butsu....!”

(Extraído do livro "Ocean - An Introduction to Jodo Shinshu Buddhism in America" - Rev. Kenneth K. Tanaka (Wisdom Ocean Publication) - Tradução livre de Shaku Hondaku)

17 de abril de 2008

A Melhor Escola Para Nossos Filhos

Foi com uma mistura de humor com indignação que li várias reportagens na mídia sobre o ranking nacional das escolas particulares baseados na prova do ENEM.

Lendo tais reportagens comecei a ver na minha mente pais e mães se gabando de terem seus filhos nas escolas, ditas, "top 10" do país e avós espalhando pela vizinhança que seu netinho é aluno do Vértice (primeiro da lista, ou seja, "The Top") "desde pequininho" e é "um dos melhores da classe".

Foi quando busquei a escola das minhas filhas, "Escola Viva", na lista e não encontrei. Então lembrei que o ENEM se baseia na prova do ensino médio e a Escola Viva ainda não possui ensino médio. Confesso que no começo senti certo desânimo em não vê-la lá, afinal, é a escola que "minhas filhas" estudam e por consequência a "melhor do Brasil". Vocês já viram o quanto se discute sobre escolas em conversas de amigos que possuem filhos nessa idade? É uma Ode Ao Ego: "minha filha estuda no Porto...", "ahhh mas no Santa ela tem informática desde o maternal", "eu pus meu filho no Waldorf pois a filosofia de lá me encanta", "ahhh, mas você tem que ver o programa de esportes do Gracinha...", ou ainda "minha filha participou de uma competição de matemática pelo Objetivo que teve tantos campeões". É hilário se não fosse catastrófico e fico pensando que o ego humano age até mesmo sobre as pessoas inocentes de nossos filhos, os quais são usados como instrumentos de nossos venenos mentais.

Depois que voltei a realidade, comecei a pensar o que uma escola deve representar na vida de um filho e o quanto vale estudar em uma escola "top 10" para que se seja "alguém na vida". Me lembrei de um texto da psicóloga Rosely Sayão que discorria sobre "a terceirização da educação dos filhos, promovida pelos pais em relação à escola", ou seja, hoje em dia, pela pura falta de tempo ou vontade, os pais esperam que as escolas eduquem seus filhos em todos os aspectos, sonegando a estes seus próprios valores e visões sobre a vida. Também lembrei de outro texto dela, que fala sobre "bullying", assunto que é muitas vezes ignorado pelos pais e por educadores e trata do assédio psicológico sofrido pelas crianças na escola por parte dos próprios colegas e por incrível que pareça isso acontece nos melhores colégios do mundo, inclusive nas "top 10". Então me lembrei de um churrasco na casa de uns amigos, no qual uma arquiteta presente anuncia: "Quando recruto alguém, a primeira coisa que vejo é a faculdade que estudou, se for UNIP, Anembi Morumbi, UNISA ou UNINOVE eu jogo o curriculum no lixo, já nem leio o resto".... dei algumas risadas porque do outro lado da mesa estavam eu e minha esposa, ambos ex-alunos da UNIP, mas tudo bem, deixa para lá....

Voltando à realidade me dei conta que é melhor que a escola de minhas filhas não figure nem entre as "Top 500", porque minhas filhas não estão lá para serem gênias ou especilistas em "binômio de Newton" ou para tirarem 9,5, 10 em todas as provas. Não é isso que espero de uma escola. O que espero é que minhas filhas sejam GENTE, gente de verdade, sinceras, honestas e acima de tudo, compassivas. Sei que grande parte disso depende de nós pais, mas é muito bom quando a escola segue a mesma linha. Sempre escuto que "o mundo é competitivo demais, temos que preparar nossos filhos!!!" e ouvi muito isso de meus pais. No fim, cresci com medo de arriscar, de só apostar no certo e vejo muitos conhecidos com menos posses do que eu, mas com uma vida tranquila, fazendo o que gostam e sendo GENTE.

Por outro lado, vejo pessoas que esturaram no ITA com mais de 50 anos, com empregos de jovens de 26-27 anos, subalternos de gente que estudou na UNIP, na UNISA, na UNINOVE, na Anhembi Morumbi, pois afinal o que interessa é a atitude das pessoas e que estas estejam preparadas para a vida e não para uma profissão e a vitória é uma conseqüência e não um objetivo.

Enquanto vencer for um objetivo, quem trilhará esse caminho é o ego e muitas vezes o ego dos pais e não dos filhos.... quando a vitória for vista como uma conseqüência, nossos filhos viverão uma vida plena. Nós pais temos o dever de incutir em nossos filhos nossos valores, pois isso escola nenhuma o fará.

Por fim, me lembrei que meu irmão estudou no Vértice, foi convidado a se retirar do colégio, por contestar as convicções do diretor. Vê-se bem que a escola "Top 1" deve ser campeã em "binômio de Newton", mas pelo jeito foi reprovada no quesito democracia.

Namo Amida Butsu

Resposta ao filósofo Slavoj Zizek

Amigos, abro meu blog para publicar carta de resposta de um monge conhecido meu, ao editorial da Revista MAIS escrito pelo dito filósofo Slavoj Zizek, contestando a posição dos tibetanos em relação à invasão chinesa. Tal editorial é uma peça de "ficção científica" que se não peca pela orientação puramente comunista (nada contra, mas tudo que é demais faz mal), peca pela falta de conhecimento histórico e evidencias comprobatórias:

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Prezados editores do "Mais":


Tive a oportunidade de ler a matéria de título "O Tibete não é tudo isso" de autoria do Sr.Slavoj Zizek e gostaria de tecer alguns comentários críticos em relação aos 9 pontos levantados pelo autor:

1-O primeiro ponto consiste na alegação de que a relação entre a China e o Tibet é longa e complexa e que é problemática a asserção de que o Tibete era um país independente em 1949 quando foi invadido pela China. Acho importante ressaltar que "China" é um termo muito vago no que diz respeito à unidade política desse país. Na crônica histórica chinesa geralmente se emprega o nome de cada dinastia para designar a unidade política. Acho no mínimo problemático afirmar que o Tibete tenha estado sujeito ao poder protetor da China durante alguma das Dinastias nacionais, mas me parece bem mais fácil e mais concreto apontar para a relação entre esses dois estados nas três últimas Dinastias ( Yuan, Ming e Shin ) e na época da república chinesa. Na dinastia Yuan ,China e Tibet fazem parte de uma mesma formação política, mas a própria China nada mais é nessa época do que uma parte do Império Mongol. Se a atual República popular da China quizer reclamar como integrante de seu território toda a extensão territorial do Império Mongol ela teria que reclamar a Hungria e a Ucrânia como parte de seu território. Na Dinastia Ming são expulsos os Mongóis e consequentemente à sua expulsão o território chinês mingua considerávelmente. Não conheço nenhum historiador responsável que afirme que o Tibete fazia parte do território chinês durante essa Dinastia. No que diz respeito à última Dinastia, a Dinastia Shin é polêmico que o Tibete fizesse parte do território dessa Dinastia, mas o problema central não é esse: mesmo que o Tibete tivesse se tornado parte do território dessa Dinastia ela era da mesma forma que o Império Mongol uma unidade política capaz de abarcar a China e o Tibete em seu interior. A Dinastia Shin era uma unidade política completamente distinta da atual República popular da China e sua relação com o Tibete em nada legitima o direito de posse territorial do Tibete por parte desta última. O exemplo dado por Zizek a respeito da origem do termo Dalai Lama é particularmente infeliz: esse título se origina em uma relação contratual entre o Tibete e a Mongólia e não entre o Tibete e a China. Para terminar, existem várias avaliações a respeito da relação entre o Tibete e a república chinesa iniciada em 1911mas não conheço nenhum historiador responsável que reconheça que o tibete fazia parte do território chinês nesse período. Assim sendo, a invasão do Tibete pela China em 1949 assume um caráter nítidamente imperialista e os argumentos apresentados por Zizek se revelam como a expressão de uma ignorância e obscurantismo verdadeiramente inacreditáveis. Semelhante ignorância e obscurantismo não condizem com o ofício de um filósofo.


2- O segundo ponto levantado por Zizek diz respeito ao feudalismo rígido e à ausência de desenvolvimento econõmico no Tibete anterior à invasão chinesa.
Acho estranho que se tente superar esses problemas através de uma ocupação imperialista, mas se impõe aí a seguinte questão: a quem esse desenvolvimento econõmico tem beneficiado? Ao que parece não foi ao povo tibetano.

3- O argumento seguinte consiste em que a destruição dos mosteiros tibetanos não foi um efeito importado pela revolução cultural na medida em que só estavam estacionados 100 guardas vermelhos no Tibete da época e que as destruições foram desenvolvidas pelos próprios tibetanos. Acho duvidosos esses dados históricos e gostaria de solicitar provas de sua veracidade, mas essa não é a questão decisiva. O que importa é que tendo sido essas destruições orquestradas pela ideologia e pela liderança política do governo de Beijing ele não tem como se eximir da responsabilidade por esse processo de destruição cultural e religiosa. Trata-se de outro argumento inacreditável para alguém que pretende representar a filosofia.

4-O quarto argumento tenta racionalizar a invasão chinesa do Tibete em função da presença de agitadores da Cia que buscavam desestabilizar essa região.
Dizer isso é a mesma coisa que justificar a antiga invasão do Afganistão pela Urss. ( existe aí um dado curioso: Tibete e Afganistão possuem um destino comum como objetos da disputa territorial das nações imperialistas )

5- O quinto argumento diz respeito à violência dos protestos. Além de silenciar a respeito da brutal repressão policial voltada para esses protestos evita discutir a complexidade da avaliação contextual e a existência de forças políticas envolvidas que possuem orientação completamente distinta dos Monges budistas e do Dalai Lama. A comparação completamente infeliz com a situação palestina evidencia a meu ver um viés claramente fascista na abordagem de Zizek.


6-Aparece em seguida a alegação de que a China tem investido econõmicamente no Tibete e que esses investimentos tem proporcionado ao´povo tibetano um padrão de vida de que ele nunca gozou em toda sua história. É curioso que ele silencia a respeito da política de transferência de populações e dos privilégios econômicos e sociais que essas populações gozam em relação à população tibetana. Semelhante visão aponta para uma concepção vulgarmente desenvolvimentista, visão essa que parece se constituir no único fundamento das infelizes afirmações de Zizek.

7- O argumento seguinte diz respeito em parte ao abrandamento da repressão física à religião e ao fato parcialmente verdadeiro de que os chineses aprenderam que o capitalismo sem freios é muito mais eficaz que a violência física quando se trata de enfraquecer as relações sociais tradicionais. Zizek confirma essa visão afirmando que em uma ou duas décadas os tibetanos estarão reduzidos a uma minoria semelhante aos índios Norte-Americanos.
Semelhante afirmação implica a meu ver em uma apologia do genocídio cultural orquestrado pelo desenvolvimentismo e pelo capitalismo selvagem.
Tudo isso me parece uma grotesca justificação do genocídio de minorias através da categoria criminosa da inevitabilidade histórica do capitalismo sem freios. Pretendo que a função de um filósofo consiste em criticar radicalmente semelhante visão e em apontar caminhos para sua superação. Zizek parece ter capitulado diante da ideologia neo-liberal e abdicado de seu papel de filósofo.

8- Vem em seguida a visão extremamente preconceituosa de que a motivação da solidariedade ocidental ao Tibete deriva da ideologia "New Age" veiculada pelo Budismo do Dalai Lama. Sendo eu mesmo budista e essencialmente crítico da ideologia do "New Age" sinto-me obrigado a protestar enérgicamente contra uma asserção tão profundamente marcada pelo preconceito e pela ignorância. Mesmo no Brasil as lideranças budistas que lideram o movimento de solidariadade ao Tibete são essencialmente críticas à ideologia do "New Age". Zizek chega ao absurdo de expressar o temor de que essa "ideologia budista do new age" esteja se transformando na ideologia dominante do mundo capitalista globalizado, afirmação essa que além de ser uma verdadeira expressão de ignorância e obscurantismo traz em sí fortes implicações xenófobas e etnocêntricas.


9- O último argumento é o mais sério de todos e me parece expressar o ponto central da visão de Zizek. Ele aponta para uma possível contradição entre o desenvolvimento econômico e a democracia e desenvolve uma verdadeira apologia da eficácia dos regimes autoritários no processo de desenvolvimento econômico. Semelhante visão é um insulto para quem viveu sob as ditaduras militares desenvolvimentistas no Brasil e em outros países da América latina.
E isso aponta para o caráter medíocre da visão marxista de Zizek. Ele ainda parece acreditar no mito de que o crescimento das forças produtivas conduz à desagregação das relações de produção capitalista. Semelhante visão é virtualmente idêntica à visão do Partido comunista Chinês que resume sua atual tarefa como sendo o "desenvolvimento das forças produtivas". Lembro-me de ter assistido na televisão a um discurso do ditador norte-americano George W.Bush que justificava a entrada do mercado norte-americano no Iraque sob o pretexto da necessidade de superar a miséria. A retórica de Zizek não difere em nada a meu ver da visão dos ditadores chinese e norte-americanos.
Para concluir, gostaria de dizer que é precisamente essa crença fatalista na inevitabilidade do crescimento econõmico capitalista e quantitativo, essa superstição que acredita existir alguma relação entre semelhante desenvolvimento e a superação da miséria das massas que se constituiu no verdadeiro monstro do século XX, monstro esse responsável por todas as guerras e genocídios que pudemos testemunhar nesse terrível e doloroso século. A superação de semelhante superstição me parece ser a grande questão do séculoXXI. Concordo com Zizek que existe um conflito essencial entre capitalismo e democracia; a questão para mim consiste precisamente na superação do capitalismo e da crença fatalista no crescimento econômico através da radicalização da democracia. Creio também que a publicação dessa grotesca apologia do genocídio, da ignorância e do obscurantismo coloca uma séria questão para os senhores: como conciliar a liberdade de expressão com a publicação de semelhante apologia do genocídio? Admito que não tenho uma resposta definitiva para essa questão: aguardo o claro posicionamento dos senhores editores do "Mais".



Sem mais, respeitosamente.

Joaquim Antônio Bernardes Carneiro Monteiro.
Monge Shaku Shoshin.

5 de abril de 2008

A semana que abalou o Tibete: uma reconstituição

(por Sylvie Kauffmann, Brice Pedroletti e Bruno Philip)

(com Frédéric Bobin)

Na sexta-feira, 14 de março, a violência tomou conta de Lhasa, a capital do Tibete chinês. Qual seria ao certo a seqüência de eventos que antecedeu, efetivou e depois se seguiu a esta "sexta-feira negra" que projetou brutalmente o Tibete como destaque na mídia e na cena diplomática mundial, colocando ainda a China numa posição defensiva? Mais de quinze dias depois dos fatos, muitos são os elementos que permanecem sem explicação. Os testemunhos são parciais. A intoxicação da propaganda política levantou a sua cortina de fumaça. A impossibilidade para a imprensa de trabalhar dentro de condições independentes num Tibete trancado a sete chaves pela forças chinesas hipoteca a procura da verdade. Contudo, depois da grande confusão dos primeiros dias, tornou-se possível agora enxergar um pouco melhor o que realmente aconteceu. Tudo começa na segunda-feira, 10 de março em Lhasa. No Tibete, o dia 10 de março é sempre uma data complicada: é o aniversário do levante de Lhasa em 1959. Na ocasião, o 14º dalai lama, com idade de 23 anos, havia optado por fugir, passando pelos desfiladeiros gelados do Himalaia para se refugiar na cidade indiana de Dharamsala. Até hoje, o episódio constitui um motivo de luto político para os tibetanos. A data permanece sensível, mas não necessariamente explosiva. Mas este dia de 10 de março de 2008 é muito especial. Os Jogos Olímpicos de Pequim serão realizados dentro de cinco meses, e os holofotes da imprensa internacional estão voltados para a China cintilante. Para os tibetanos, esta é uma excelente oportunidade. Eles estão decididos a tirar proveito deste momento excepcional para fazer com que a sua voz seja ouvida.Quantos deles estão reunidos na primeira hora do dia desta segunda-feira? 200? 300? 400? São 6h da manhã e eles saem do grande mosteiro de Drepung, situado a 8 km a oeste de Lhasa.


Foto de 22 de março mostra monges correndo ao lado de carros incendiados em Lhasa
Em meio ao ruído surdo produzido pelo pano dos seus hábitos vermelho-alaranjado, os monges tomam o caminho que leva até o centro da cidade. Nenhum slogan político é proferido. Os religiosos estão exigindo uma única coisa: a liberação daqueles dos seus colegas que foram encarcerados em outubro de 2007 por terem maliciosamente celebrado uma vitória diplomática do dalai lama. Em Washington, o chefe espiritual dos tibetanos havia então recebido - das mãos de George W. Bush - a medalha de ouro do Congresso americano. Em Drepung, alguns dos muros do mosteiro, como que por acaso, haviam sido repintados de branco no dia que se seguiu a este evento. O desafio silencioso não tinha passado despercebido da polícia chinesa. Os supostos líderes da operação haviam sido presos.Portanto, neste dia 10, os monges estão marchando. A pequena tropa não tarda a se deparar com uma barragem de forças da ordem. Frente ao obstáculo de escudos, os religiosos optam por ficarem sentados no asfalto. O ato pacífico prossegue por algumas horas, até que a assembléia resolva dispersar-se. Naquela altura dos acontecimentos, a polícia se mostra cautelosa. Ela recebeu aparentemente instruções para manter uma atitude de moderação. No crepúsculo, um novo agrupamento de monges se forma, desta vez no centro da cidade. Monges e estudantes afluem para se reunir no centro da Praça Barkhor. Eles vão formando um amplo círculo, segurando-se pelas mãos. Policiais de uniforme ou a paisana também estão presentes, em massa. Seis ou sete manifestantes são embarcados num camburão. O ambiente em Lhasa está ficando extremamente pesado.No dia seguinte, terça-feira, 11 de março, o céu acima de Lhasa continua tão azul como na véspera, daquele azul puro das altitudes himalaias, mas o clima está mais para a tempestade. Monges de Drepung avançam novamente na calçada, galvanizados pelas prisões efetuadas na véspera. Eles são imediatamente seguidos por outros religiosos do mosteiro de Sera, situado a 4 km ao norte da cidade antiga. Estes últimos estão erguendo bandeiras tibetanas. Os incidentes ocorrem no final da manhã, quando a polícia chinesa, que conta com o apoio das forças paramilitares da Polícia Armada do Povo (PAP), decide dispersar os manifestantes por meio da força. Bombas de gás lacrimogêneo são arremessadas, enquanto os monges são agredidos a golpes de cassetete.Na quarta-feira, 12 de março, a tensão, que já é palpável, cresce mais um pouco. Os rumores segundo os quais houve tentativas de suicídio de dois monges de Drepung, que teriam seccionado seus antebraços, deixam as mentes ainda mais febris. Outros monges de Sera teriam iniciado uma greve da fome. Dentro deste mesmo mosteiro de Sera, monges são espancados pela polícia, segundo relata uma testemunha à BBC.Um turista europeu, que costuma visitar a China com freqüência e que estava então em férias em Lhasa, relata que a partir daquele momento o bairro tibetano passa a ser investido pela polícia. "A cada 10 a 15 metros, atravessando o circuito das peregrinações em volta do templo do Jokhang, no meio da rua, uma mesa havia sido instalada com quatro cadeiras, ao lado de policiais de plantão", conta o turista ao repórter do "Le Monde".O Jokhang constitui o coração da Lhasa antiga, um local de santidade suprema diante do qual se prosternam dezenas de peregrinos que não raro vieram dos cantos mais remotos do Tibete. Com as mãos juntadas acima da cabeça, eles se ajoelham, se jogam no chão, repetem as suas genuflexões por vezes sucessivas após terem completado, no sentido sagrado dos ponteiros de um relógio, os dois círculos da procissão circular em volta do Johkang. Alguns dias mais tarde, a tragédia será vivida nos arredores deste templo. No Jokhang, os religiosos estão todos reunidos no primeiro andar, onde eles vivem. Na quinta-feira, dia 13, um deles se debruça numa janela e consegue transmitir para alguns turistas a seguinte mensagem: "Not so good here" ("A situação não está muito boa por aqui"), segundo relata um visitante europeu.Na sexta-feira, 14 de março, a mecânica infernal está pronta para funcionar. Depois dos mosteiros de Drepung e de Sera, é a vez do templo de Ramoche começar a agir. No final da manhã, logo depois da oração, uma marcha de monges começa a se organizar, mas ela é imediatamente bloqueada pela polícia. Os religiosos ficam sentados no chão. Por volta das 14h, o turista entrevistado pela reportagem do "Le Monde" vê dezenas de caminhões militares avançando em velocidade rumo ao bairro tibetano. "Os monges se recusaram a sair do lugar", lhe explica o seu guia. "A polícia então os atacou e os populares reagiram, incendiando um veículo militar". Os "populares", portanto, "reagiram".A grande novidade no processo é que os "curiosos" tibetanos resolvem se jogar de cabeça na briga. Saraivadas de pedras são arremessadas contra os escudos da PAP, que cede diante da força do ataque. Começa então o motim. A multidão em fúria toma conta da Rua de Pequim, a artéria principal que atravessa Lhasa de leste a oeste, e depois se espalha pelas alamedas da cidade antiga.A cólera dos tibetanos, que tomou conta tanto dos laicos quanto dos monges, se manifesta então, alvejando raivosamente tudo o que simboliza dezenas de anos de colonização chinesa. Os amotinados apedrejam caminhões da polícia, concentram os seus ataques contra os escritórios da agência de notícias China Nova, contra os edifícios da segurança pública, o complexo comercial Baiyi, e contra uma mesquita cuja porta principal está em chamas. Eles agridem com violência os chineses han que eles cruzam no seu caminho, incendeiam todas as lojas comerciais que pertencem a não-tibetanos. Uma escura nuvem de fumaça começa a encobrir Lhasa.Em meio a este caos generalizado, os rancores longamente acumulados entre tibetanos e migrantes han ou hui (muçulmanos), que são proprietários da maior parte do comércio em Lhasa, explodem na forma de um ódio desenfreado. O motim adquire um caráter abertamente racial. "Aquilo era um derramamento de violência étnica de natureza a mais desagradável que possa existir", contou James Miles, um correspondente em Pequim da revista "The Economist" e o único jornalista estrangeiro que estava presente em Lhasa naquele dia.Por sua vez, o correspondente da revista semanal alemã "Die Zeit", George Blum, desembarca na cidade no dia seguinte. Ele descobre a extensão dos estragos ao caminhar pela cidade antiga praticamente deserta. Ele fica espantado "diante da amplidão das destruições e das marcas de uma violência tão grande que ela chocou alguns tibetanos, apesar de estes serem profundamente hostis aos chineses". Jovens que haviam participado dos motins bancam os valentes diante deles. Eles exclamam: "Nós lhes mostramos, aos chineses, tudo aquilo que nós somos capazes de fazer..."O motim vai prosseguir até o sábado, 15 de março, em meados do dia. O balanço da destruição é considerável. Segundo as autoridades chinesas, foram recenseados 22 mortos, dos quais a maioria é de "inocentes" que foram queimados no incêndio do seu domicílio. Já, segundo afirmam assessores do dalai lama, cerca de 140 pessoas foram mortas, das quais um grande número perdeu a vida durante a repressão policial que se seguiu às arruaças. Segundo algumas testemunhas tibetanas, 26 pessoas teriam sido mortas somente na prisão de Drapchi. Contudo, não há nenhuma imagem disponível para ilustrar esta repressão sangrenta, ao passo que um grande número de documentos vem comprovar as agressões raciais anti-han e anti-hui. Esta é a grande força da propaganda chinesa.Na sexta-feira e na manhã de sábado, turistas viram veículos blindados de transporte de tropas equipados com canhões circulando pelas grandes artérias de Lhasa. Eles ouviram disparos de armas de fogo, rajadas de metralhadoras. Mas, terão sido disparos de advertência? Ou tiros à queima-roupa? Ninguém sabe, uma vez que os testemunhos dos estrangeiros são auditivos, e não visuais. Por sua vez, alguns tibetanos afirmam terem visto a partir da sexta-feira, vítimas caírem mortas diante deles. "A polícia atirou na multidão com balas reais", relata uma testemunha na Radio Free Asia.A repressão mais intensa veio à tona a partir de sábado ao meio-dia na cidade antiga cercada e interditada, quando as testemunhas foram mantidas à distância. Os turistas estrangeiros foram pressionados para saírem e ficarem afastados. Sabe-se que as operações policiais se multiplicaram, que operações de prisão em massa foram realizadas. Mas as circunstâncias precisas permanecem desconhecidas, assim como o número das eventuais vítimas. Lhasa tornou-se um "cofre hermético" onde é possível imaginar que o pior pode ter acontecido, mas, por enquanto, nada pode ser provado.No meio desta história trágica, um outro mistério, muito perturbador, merecerá ser explicado algum dia. As forças chinesas, apesar de estarem concentradas maciçamente e prontas para a intervenção, terão aguardado por mais de 24 horas antes de "limparem" o terreno empregando os enormes meios à sua disposição. Durante este período, elas deixaram os amotinados saquearem, queimarem e destruírem com toda liberdade. Será porque elas tinham perdido o controle da situação? Será que elas tinham recebido instruções para mostrarem moderação de modo a que fosse evitado um banho de sangue que poderia ser filmado, um "massacre da Praça Tiananmen" tibetano que teria sido fatal para os Jogos Olímpicos de Pequim? Ou terá sido o fruto de um maquiavelismo que consistiria em deixar o caos se instaurar na cidade - nem que fosse ao preço da morte de pessoas "inocentes" - de modo a justificar uma repressão à qual ninguém pôde assistir? A história dos motins de Lhasa, portanto, ainda está por ser escrita.Contudo, as atenções já estão se voltando para outros lugares. Não foi apenas em Lhasa que o Tibete se amotinou. A revolta propagou-se por outras áreas em volta da Região Autônoma, isto é, fora do Tibete estritamente administrativo. Nas regiões de povoamento tibetano do Amdo e do Kham, que estão vinculadas atualmente às províncias chinesas do Qinghai, do Gansu, do Sichuan e do Yunnan, cerca de trinta focos de protestos foram identificados. O universo tibetano, apesar da sua pulverização administrativa e geográfica, reagiu de maneira solidária. Logo em 15 de março, centenas de monges do mosteiro de Labrang, em Xiahe (na província do Gansu), organizam uma marcha pedindo pelo retorno do dalai lama, e acabam esbarrando nos escudos da Polícia Armada do Povo. Muito rapidamente, diversas localidades do Amdo e do Kham também passam a ser os palcos de distúrbios.É difícil determinar com certeza se manifestantes foram mortos pelas forças da ordem durante esses movimentos, além do número das vítimas. Mas, na prefeitura tibetana autônoma de Aba, no noroeste da província do Sichuan, em 16 de março, os protestos degeneraram: tal como aconteceu em Lhasa, comércios chineses, veículos além de uma delegacia foram incendiados. Os registros oficiais não assinalam nenhuma vítima chinesa. Os monges do mosteiro de Kirti conseguiram recuperar os corpos de cerca de quinze tibetanos mortos por balas. As fotos de oito desses cadáveres não tardam a circular no exterior. Trata-se praticamente das únicas fotos que foram feitas da repressão chinesa.Outros incidentes graves são deflagrados em 24 de março em Luhuo (Drango em tibetano), na prefeitura autônoma de Ganzi, no Sichuan. A reportagem do "Le Monde" conseguiu obter o depoimento de um tibetano originário da região. "Foram as monjas as primeiras que saíram para ocupar as ruas, em 24 de março, por volta das 16h", conta. "O seu mosteiro, o Ngyoe-go, fica a uma dezena de quilômetros da principal cidade do distrito. Elas desfilaram gritando slogans que pediam pelo retorno do dalai lama. A polícia armada as bloqueou e as obrigou a subirem dentro de caminhões para conduzi-las de volta até o mosteiro. Depois, foi a vez dos monges do mosteiro de Chokri, mais perto da cidade, descerem até a cidade. Eles foram seguidos por um grande número de aldeões. Os policiais quiseram impedi-los de terem acesso aos prédios da administração. As pessoas cantavam, reclamavam a liberdade para o Tibete e o retorno do dalai lama. Então, confrontos teriam ocorrido. Pedras foram arremessadas em direção aos policiais. Depois, os chineses afirmaram que um policial havia sido morto por uma pedra, mas ninguém viu o que aconteceu. A polícia atirou. Um jovem monge morreu. Um aldeão também teria sido morto, mas, neste caso, não ficou muito claro. Na noite daquela segunda-feira, as forças de polícia se deslocaram até o mosteiro das monjas, obrigaram-nas a ficarem ajoelhadas e prenderam todas elas, exceto as mais idosas".Esses incidentes em Luhuo ocorrem em meio a um ambiente já muito pesado. Da mesma forma que em todos os outros lugares nas zonas tibetanas, as pessoas, nesta região, estão há meses à beira de um ataque de nervos. A perspectiva dos Jogos Olímpicos conduziu as autoridades a endurecerem o seu controle. Ao acompanhar as manifestações nas regiões tibetanas do Sichuan, o enviado especial do "Le Monde" pôde constatar o quanto a população está apegada ao dalai lama. E o quanto era profundo o desespero por vê-lo "vaguear tão longe do seu território", numa idade cada vez mais avançada. Muito antes do levante de março, os apelos por um retorno do dalai lama, que eles emanassem de monges ou de nômades, haviam alimentado uma tensão recorrente.No decorrer da campanha de "educação patriótica" que foi deslanchada em setembro de 2007 em toda a prefeitura tibetana de Ganzi, no Sichuan, os policiais e os oficiais haviam circulado por toda a região, indo de mosteiro em mosteiro, para obrigar os monges a denunciarem o dalai lama. Para tentarem evitar este constrangimento, em Batang, segundo contou uma testemunha, todos os monges partiram "em férias", deixando no lugar apenas o responsável do "comitê de direção democrática" que, dentro de cada mosteiro, tem supostamente o papel de estar às ordens do partido. Quando os oficiais chegaram, este monge lhes mostrou o mosteiro vazio e declarou: "Por que vocês não tentam obrigar militantes hui (muçulmanos chineses) a comerem carne de porco? Se vocês conseguirem, então nós renunciaremos ao dalai lama". A cólera estava crescendo na surdina. Bastou uma centelha em Lhasa para que ela tomasse conta de todas as mentes.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
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fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/200
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2008/04/05/ult580u3006.jhtm